Não estou no futuro, apenas do outro lado do mundo em um país predominantemente budista. O ano aqui é 2552, contado a partir do nascimento do primeiro Buda, Gautama. Sou recebida pela guia Suzana e solicito sua ajuda para resgatar uma caixa com 11kg que havia despachado de Manila com itens não mais necessários (roupas de trabalho, livros) para evitar pagar extra de bagagem (uma fortuna!) nos vários trechos aéreos que faria. Péssima idéia... não quero gastar meu blog para descrever as mais de 5 horas e os US$80 que perdi para conseguir resgatar a caixa, que incluem gorjetas gordas e inexplicáveis taxas, passando até por “aluguel” de carro com motorista autorizado a entrar na área de cargas, vais-e-vens entre prédios, coletando assinaturas de autoridades, enfim, um mau-começo que preferi esquecer e depois até rir, pois de nada iria adiantar acabar com minhas férias recém-iniciadas. E se não fosse a Suzana que acompanhou a saga e o paciente motorista, eu teria desistido...
Espalhados pelo país estão mais de 300 mil templos budistas. Nas ruas passeiam os famosos “tuk-tuk”, meio de transporte com motor de moto (o nome tuk-tuk vem do barulho característico) muito utilizado em Bangkok e demais cidades. Muito bem preparada para receber turistas, com estradas amplas e uma segurança surpreendente – não há nenhum tipo de assalto ou violência - a Tailândia impressionou-me.
Poucos arranham o inglês e o tailandês não se parece com nada, tem um alfabeto próprio. “Aprendi” algumas palavras básicas e me divertia com a guia e o chofer Chan quando “gastava” meu novo vocabulário:
Sauadi ka – bom dia
Kokun ka - obrigado
Sabaidi mai – como vai?
Tip-tip – algo como “pouquinho”
Chop dii – boa sorte (também utilizado para despedidas, já que dizer adeus não é muito comum aqui)
A guia Suzana não era uma típica tailandesa - ou o que seria esperado de uma mulher por lá: doce, submissa, de fala baixa. Eu só não ouvia a voz dela enquanto ela comia - acho. Ficou rouca ao final da viagem, incrível, mas de vez em quando ela tagarelava incessantemente no celular mais de 1 hora e meia, enquanto nos deslocávamos de um lugar a outro. Um coração de ouro, distribuía gorjetas para os necessitados, comprava oferendas e doava dinheiro em todos os templos em que paramos. Também me encheu de presentinhos, coisa que estranhei no começo. Mas tinha lido um pouco sobre a cultura dos tailandeses e, nesse quesito, ela pareceu típica.
Igualmente aos demais países do Sudeste Asiático pelos quais havia passado, a comunidade e a família são muito importantes na Tailândia. Ainda se paga o dote, cuja origem deve-se ao fato de que a esposa sempre vai morar com a família do marido (para depois cuidar dos pais dele quando idosos) e isto antigamente significava que os pais dela estariam perdendo uma trabalhadora do campo. O dote seria uma forma de “ressarcir” essa mão-de-obra. Comentário da guia: aqui, pouco importa que o marido (não vale para a esposa!) tenha amantes (claro que o dela não!), contanto que ele nunca deixe a família e a sustente.
A cerimônia do casamento é realizada em casa com nove monges e muita festa, com a participação de elefantes e tudo mais. A tradição manda que a família do noivo faça uma “procissão” até a casa do pai da noiva para pedir a mão dela e acertar o dote. Hoje em dia ainda existem casamentos arranjados, mas é mais aceito que cada um escolha seu companheiro, sempre com a autorização dos pais e da comunidade. Divórcios praticamente não existem e não são bem-vistos – quebrar o vínculo familiar e com a comunidade não é esperado na cultura asiática.
Diversas especiarias, pimentas e leite de coco estão presentes na comida tailandesa. Gostei do sabor, mas naquela altura meu estômago já estava meio estressado para aceitar tantos temperos diferentes.
Visitei o campo de elefantes, e, logo ao entrar, alguns vieram para cima de mim esticando suas trombas. Fiquei meio preocupada com aqueles “bichinhos” se aproximando daquela maneira, mas acabei percebendo que na verdade buscavam cachos de banana ou bambus, vendidos aos turistas para alimentá-los (comem 200 kg por dia!). Fiz um outro passeio montada em um belo elefante, comprei umas bananas para ele e tirei foto com um filhotinho, tão bonitinho! Cruzei com um grupo de barulhentos italianos, enquanto me divertia com o cuidador do meu elefante que cantava o tempo todo, beeeeeem alto. Ele parecia um gondoleiro! Ao retornar, assisti a um espetáculo com vários elefantes e entreguei mais uma gorjetinha, que era “exigida” dos turistas pelas invasivas trombas, que os cutucavam nas arquibancadas após o show dos inteligentes animais.
Inusitado mesmo foi conhecer a tribo das mulheres-girafa. O Governo de Chang Mai, juntamente com o da Tailândia, trouxe algumas famílias das tribos que ficam na fronteira com a Birmânia (Myanmar) e montaram um tipo de “centro turístico” onde se paga para poder acessar. Elas vendem seus artesanatos e produzem seus alimentos, enquanto ficam à disposição para fotos dos turistas. Não tem identidade nem podem deixar o local, a não ser na visita anual que fazem às suas famílias. Os guias juram que eles preferem essa vida, pois assim ganham algum dinheiro... não me pareceram muito felizes, para dizer bem a verdade. É no mínimo esquisito, mas não nego que foi o que mais me impressionou na Tailândia.
Ninguém sabe ao certo como surgiu a tradição de se colocar os anéis de ferro no pescoço das mulheres, na versão da guia as nascidas em lua cheia são consideradas princesas angelicais e, a partir dos cinco anos de idade, começam a colocar os anéis no pescoço, que pesam até 22 kg. Eu experimentei um “falso colar” (era só metade) e era bem desconfortável e pesado. Hoje em dia, acabam colocando os colares em todas as meninas, pois já virou atração turística. Mito ou verdade: se tirar os anéis, o pescoço prolongado quebra e a mulher morre. MITO! Isso tanto não é verdade que elas costumam tirar para limpar (raramente) ou viajar.
Durante a viagem, andei nos mais diversos meios de transporte: na tradicional carroça puxada a cavalos em Lampang, moto-taxi, carro puxado a boi (incluso no pacote, que mico!), balsa de bambu, triciclo movido a bicicleta, barquinhos, mas nada tão divertido quanto o passeio de tuk-tuk. O primeiro que peguei tinha um companheiro ao meu lado: um coelhinho de estimação, que logo veio me “cheirar” como se fosse um cachorrinho.
Também não poderia deixar de testar a famosa massagem tailandesa. Casas de massagem estão espalhadas por todos os lados – nos abordam nas calçadas oferecendo o “cardápio” de massagens – o preço é bem acessível, mas ainda assim o dobro do custo nas Filipinas e de qualidade infinitamente inferior.
A profissão “mais antiga do mundo” é muito comum por lá, país turístico. Circulando em volta dos hotéis ou se misturando em casas noturnas que ficam ao lado das feirinhas de compras, as “meninas” tentam a sorte e sonham em encontrar um branquelo (os asiáticos valorizam muito a pele clara) que as leve embora do país para supostamente ter uma vida melhor.
Visitei incontáveis templos, acompanhei a Suzana em diversas oferendas que fazia e tomei a benção de monges, que não podem tocar as mulheres (ou tem que se purificar depois). Interessante o templo dos macacos, que são considerados sagrados, pois diz a lenda que levavam frutas ao Gautama durante o período de iluminação. Os macacos brincam, correm, pedem “sorvete” aos turistas, pulam, caçam piolhos e dormem no chão quente. Não se restringem à área do templo: atravessam descuidadamente as ruas, penduram-se em postes e populam os prédios na vizinhança. Que arrelia!
Chegamos até Chang-Rai, visitamos o triângulo do ouro (fronteira da Tailândia com Myanmar e Laos) – nome dado devido à troca de ouro por ópio. O rei da Tailândia (fotos da família real encontram-se por todos os lugares) criou um programa para acabar com o ópio na região, mas a antiga Birmânia não fez o esforço similar. Inclusive a criação da vila onde estão as mulheres-girafa próxima a Chang-Mai foi uma das iniciativas para que as tribos tivessem alternativa de renda que não a droga, mas agora turismo e artesanatos.
Fiz mais um passeio de barco e visitei a fronteira de Myanmar (Birmânia) e depois desembarquei em Laos, onde carimbei o passaporte e encontrei uma barraca com inúmeras garrafas de bebida com uma “conserva” especial: cobras, escorpiões e outros animaizinhos peçonhentos. O solitário vendedor queria me convencer a comprar aquilo, que mais parecia vitrine de laboratório de ciências. Claro que registrei tudo na minha máquina fotográfica. Argh!
Segui o tradicional passeio turístico por mais uma feira de artesanatos em Laos e de lá seguimos direto ao aeroporto de Chang-Rai, quando me despedi do Chan e peguei um vôo de volta a Bangkok, acompanhada da Suzana. Seu marido, sensibilizado com o enjôo que a viagem no banco de trás provocou nela (eu fui à frente o tempo todo por esse mesmo motivo), presenteou-a com a passagem aérea para ela não ter que enfrentar mais 14 horas para retornar de carro, como sempre fazem os guias.
O trânsito da grande cidade de Bangkok recordava-me de São Paulo. Ficamos horas presos em um congestionamento até chegar ao hotel. Mesmo cansada, fui conhecer o Night Bazaar e, no dia seguinte, tomei um tour até o famoso mercado flutuante, com direito a um passeio de barco pelos canais da região. Comprei uma água de coco de um barquinho e depois almocei em um restaurante num bonito local, seguido de show de elefantes e de tediosas danças típicas tailandesas. De volta a Bangkok, fui jantar em Pat Pong, onde há outro Night Market circundado de casas de “luz vermelha”, que se misturam quase naturalmente ao mercadinho de artesanatos por onde todo tipo de turista passeia.
No último dia em Bangkok visitei o templo do Grande Palácio Real que abriga o Buda esmeralda (feito de jade) – foi o único lugar lotado que passei. Tive que “alugar” um pareô para poder entrar, pois por questão de respeito à realeza, deveria usar calça comprida até os pés.
Tudo brilha, folhas de ouro decoram paredes, portas, cúpulas e as fotos não captam a incrível beleza nem a grandiosidade do local. Click! Um turista chinês pediu para tirar uma foto comigo - foi o terceiro na Tailândia a fazer isso!
Foi o “grand finale” da viagem de férias. Retorno ao hotel e encontro-me com a guia Suzana, que me buscou no hotel para um almoço de despedida, deu-me mais alguns mimos e fez promessas de correspondermos futuramente.
Então, enfrentei mais dois vôos de 11 horas com conexão de 5 horas em Amsterdam para finalmente e saudosamente retornar ao Brasil.
Chop dii!
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